sábado, junho 30, 2018

Ora toma lá que isto vai ser bonito:

Na empresa:
- Olhe Rita, só para lhe dizer que em Julho vamos de férias três semanas, por isso, a Rita fica a responsável pelos serviços.

- Ah, está bem. É que eu nem estou cá há três meses, só.

(não, na verdade não respondi nada disto, disse só:
"Ok, eu vou pondo-a ocorrente por e-mails.")

quarta-feira, abril 18, 2018

Ser adulto:

Hoje de manhã, bem cedo, antes de enfiar a cabeça nos ficheiros, nas tabelas, nas fórmulas que manuseio de segunda a sexta, dei por mim a dizer que ser adulto implicava acordar cedo para ir trabalhar. Não é novidade nenhuma, não descobri a pólvora, mas rapidamente perdi-me nos meus pensamentos. Dei por mim a pensar no tempo que passo a planear as minhas refeições fora de casa, nas artimanhas que uso para fintar as poucas horas que tenho entre o trabalho e o sono, e nas horas que ainda consigo dedicar (a mim). Ser adulto não é ter de ir trabalhar cedo, ou voltar tarde do trabalho, ou ganhar dinheiro para pagar as contas. Ser adulto é ter a genica e a manha de nos sujeitarmos à sociedade, contrariando-a, e vivendo como se não fossemos todos obreiras do mesmo enxame.

quarta-feira, julho 05, 2017

Da impotência:

De não poder fazer nada, ou de fazer muito pouco.
De ter de esperar, pelo óbvio, pelo pior.
De só o meu amor não te poder salvar.
Tenho o coração tão apertado, meu F.

terça-feira, abril 25, 2017

Da multiplicação (da estupidez):

«É triste a história da tartaruga tailandesa que morreu envenenada pelas moedas que engoliu. Os cirurgiões bem tentaram salvá-la, retirando as moedas uma a uma — mais de cinco quilos — mas ela não sobreviveu.
É fácil julgar à distância, com os factos à frente dos olhos. Não serve de nada. É mais útil pormo-nos no lugar de um desses turistas que atirou uma moeda e tentarmos perceber o que é que correu mal.
Foi a quantidade de moedas que matou a tartaruga. Cada pessoa atira uma moeda mas não pensa nas milhares de pessoas que fizeram ou farão a mesma coisa. Uma moeda não faz mal mas milhares de moedas matam. Falta muitas vezes aos seres humanos a consciência de fazer parte de uma multidão imensa. O cigarro, a garrafa de plástico ou o cocó do cão que uma só pessoa deixa na praia para ser levada pelo mar têm de ser sempre multiplicados por dez mil.
Foi a quantidade de moedas ingerida ao longo dos anos. Também o tempo tem de ser multiplicado. A regularidade dos poluentes contribui tragicamente para o envenenamento.
A estupidez humana também nos pertence e não podemos sacudi-la: só admiti-la. Se calhar, pensávamos que o sistema digestivo duma tartaruga marinha era capaz de livrar-se das moedas. Se calhar, pensávamos que a tartaruga tinha alguma fantasiosa sabedoria que a impedia de ingerir coisas que a pudessem matar. Nem ela nem nós.»

A nossa estupidez, MEC

domingo, março 26, 2017

Das saudades, que são muitas:

O meu dentista é meu primo. Sinceramente, julgo que ele não o sabe, e julga que a pura semelhança entre nomes é pura coincidência ou bom gosto.
Nos quase dois anos de consultas mensais, vejo-o quase sempre já de máscara, de luvas, pronto a trabalhar e a construir um sorriso.
Na passada sexta-feira, o meu dentista chegou atrasado. Rompeu pelo consultório e balbuciou-me qualquer justificação sobre o trânsito para o centro do Porto. Eu não ouvi nada na verdade. Perdi-me no seu olhar. Avaliei as suas feições, notei a sua cor de pele mais escura, e revi o meu pai.
Em poucos segundos, a saudade inundou-me o coração e lembrou-me de tudo aquilo o que não pudemos viver.
Tenho mais saudades do meu pai do que as que imaginava ter.

Isto de fotografar em analógicas: