terça-feira, abril 25, 2017

Da multiplicação (da estupidez):

«É triste a história da tartaruga tailandesa que morreu envenenada pelas moedas que engoliu. Os cirurgiões bem tentaram salvá-la, retirando as moedas uma a uma — mais de cinco quilos — mas ela não sobreviveu.
É fácil julgar à distância, com os factos à frente dos olhos. Não serve de nada. É mais útil pormo-nos no lugar de um desses turistas que atirou uma moeda e tentarmos perceber o que é que correu mal.
Foi a quantidade de moedas que matou a tartaruga. Cada pessoa atira uma moeda mas não pensa nas milhares de pessoas que fizeram ou farão a mesma coisa. Uma moeda não faz mal mas milhares de moedas matam. Falta muitas vezes aos seres humanos a consciência de fazer parte de uma multidão imensa. O cigarro, a garrafa de plástico ou o cocó do cão que uma só pessoa deixa na praia para ser levada pelo mar têm de ser sempre multiplicados por dez mil.
Foi a quantidade de moedas ingerida ao longo dos anos. Também o tempo tem de ser multiplicado. A regularidade dos poluentes contribui tragicamente para o envenenamento.
A estupidez humana também nos pertence e não podemos sacudi-la: só admiti-la. Se calhar, pensávamos que o sistema digestivo duma tartaruga marinha era capaz de livrar-se das moedas. Se calhar, pensávamos que a tartaruga tinha alguma fantasiosa sabedoria que a impedia de ingerir coisas que a pudessem matar. Nem ela nem nós.»

A nossa estupidez, MEC

domingo, março 26, 2017

Das saudades, que são muitas:

O meu dentista é meu primo. Sinceramente, julgo que ele não o sabe, e julga que a pura semelhança entre nomes é pura coincidência ou bom gosto.
Nos quase dois anos de consultas mensais, vejo-o quase sempre já de máscara, de luvas, pronto a trabalhar e a construir um sorriso.
Na passada sexta-feira, o meu dentista chegou atrasado. Rompeu pelo consultório e balbuciou-me qualquer justificação sobre o trânsito para o centro do Porto. Eu não ouvi nada na verdade. Perdi-me no seu olhar. Avaliei as suas feições, notei a sua cor de pele mais escura, e revi o meu pai.
Em poucos segundos, a saudade inundou-me o coração e lembrou-me de tudo aquilo o que não pudemos viver.
Tenho mais saudades do meu pai do que as que imaginava ter.

Isto de fotografar em analógicas:


segunda-feira, março 06, 2017

Sobre crescer:

Ok. Eu andei afastada. Muito aliás. As pessoas que me liam já não passam aqui. Normal. Devem ser vítimas do sacana do relógio que teima em correr nas poucas horas livres que um dia nos reserva.
Isto tudo é falta de tempo. Eu sei que soa a desculpa, mas não é.
Ainda assim, vou tentar contrariar esta tendência da vida de me roubar tempo aos dias, e emendar-me.
(Re)começo hoje. Lembraram-se, na empresa, de me dizer que amanhã e quarta-feira vou passar o dia em trainning.
Obrigada pela formação que me vão oferecer na Católica. Façam-me só o jeitinho de me avisar sem ser de véspera. Era simpático.